ANA PAULA YAZBEK, mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em educação de crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades, e ditretora do espaço ekoa, em São Paulo
Diante disso, muitas escolas têm se perguntado: o que fazer com o racismo no ambiente escolar? Como criar respostas pedagógicas que acolham, responsabilizem e transformem?
Respostas necessárias e urgentes por parte das instituições de ensino devem incluir a estruturação de protocolos específicos para lidar com situações de racismo e outras formas de discriminação. Esses documentos surgem da escuta da comunidade escolar e buscam garantir um direcionamento claro: amparar quem sofreu a violência, ouvir todas as partes envolvidas e construir um caminho de reparação e transformação. Não se trata de aplicar punições automáticas, mas de promover um processo formativo, especialmente quando os atos vêm de crianças e adolescentes.
É comum que esse trabalho inclua perguntas que provoquem empatia e autorreflexão: “Como você acha que a outra pessoa se sentiu com oque aconteceu?” ou “O que você pode fazer para reparar o que causou?”. Quando sustentadas por um projeto pedagógico consistente, essas intervenções têm mais potencial de promover transformações significativas ao longo do tempo.
Além disso, algumas escolas vêm revisando seus currículos à luz da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), exigida por leides de 2003. Essa revisão curricular busca garantir a presença de autores e saberes negros, indígenas e de outras perspectivas historicamente invisibilizadas, promovendo uma educação mais representativa e plural.
No cotidiano escolar, isso pode significar desde a escolha criteriosa de livros e imagens até a construção de projetos pedagógicos que tratem da ancestralidade, da cultura afro-brasileira e da valorização da diversidade. Também implica ouvir estudantes, famílias e educadores com atenção diante de situações de violência simbólica ou direta — e agir. Mas é preciso ir além do que está previsto em lei.
O espaço ekoa, por exemplo, estabeleceu uma carta de princípios com seus diferentes públicos — famílias, fornecedores, equipes —reafirmando um compromisso coletivo com práticas inclusivas. Para tanto, constituiu comitês permanentes dedicados ao acompanhamento de temas como gênero, intolerância, sustentabilidade e relações étnico-raciais. Com isso, a escola reconhece que boas intenções não bastam: é preciso criar estruturas permanentes que sustentem o compromisso com a equidade.
Quando perguntamos o que fazer com o racismo na escola, talvez a resposta mais honesta seja começar reconhecendo que ele está presente. E que não se trata de um problema individual, mas social e histórico. O desafio está em construir respostas que não silenciem, mas que convidem à escuta, ao acolhimento e à ação pedagógica intencional. Nesse sentido, não só a escola, mas todas as instituições sociais ainda têm muito o que avançar para superar uma lógica punitivista, que promova uma cultura de paz.
A educação antirracista exige presença, preparo e constância. Ela se constrói todos os dias — nos currículos, nas interações, nas escolhas institucionais e na coragem de lidar com situações que geram desconforto. Não há soluções simples ou rápidas, mas há caminhos possíveis — e cada passo dado em direção à equidade faz diferença na vida de quem aprende e de quem educa.