Nasci e cresci em Juiz de Fora, município da Zona da Mata mineira, a cerca de 270 quilômetros de Belo Horizonte. Venho de uma família simples: meu pai é técnico em construção civil e minha mãe dona de casa. Apesar de jogar futebol desde pequeno, o esporte entrou de maneira definitiva na minha vida no início da adolescência, quando enfrentei um quadro de obesidade. Por indicação médica, comecei a praticar natação. Mais tarde, aos 14 anos, incorporei musculação e corrida à minha rotina de exercícios para acelerar a perda de peso.
Ao completar 15 anos, pouco antes de começar o ensino médio, tinha voltado ao peso ideal. Mas segui com as atividades físicas, especialmente as corridas, e, tanto no colégio como na academia onde eu fazia musculação, costumava ajudar meus colegas com dicas sobre a prática de exercícios. Na hora de prestar vestibular, esse envolvimento com o esporte e o gosto por ensinar me levaram a escolher o curso de educação física.
Após concluir a graduação em 2008 na Universidade Federal de Juiz de Fora [UFJF], fui contratado pela Secretaria de Esportes de Juiz de Fora, onde permaneci entre 2009 e 2012. Nesse período, além dos projetos de iniciação esportiva, atuei na Coordenação do Ranking de Corridas de Rua. Para ampliar a adesão das pessoas às corridas, propus mudar as competições para locais mais acessíveis. Com isso, saímos de uma média de 100 para cerca de 1.500 corredores por prova.
A corrida foi o tema do meu mestrado e do doutorado, ambos defendidos na UFJF. No mestrado, que concluí em 2013, analisei o estado mental flow e a motivação em corredores. O flow-feeling, ou “experiência de fluir”, se refere a um estado de concentração durante a prática do esporte, que faz o atleta se abstrair de pensamentos e emoções e vivenciar experiências positivas. Já no doutorado, concluído em 2021, pesquisei modos de recuperação de corredores de fundo submetidos ao treinamento intervalado de alta intensidade. No caso, isso consiste em alternar atividade física intensa com períodos de recuperação [HIIT].
Ainda no início da graduação, em 2005, comecei a trabalhar como bolsista da universidade em projetos de extensão ligados à iniciação esportiva de crianças e jovens por meio do atletismo. O atletismo é o que chamamos de esporte de base, cuja prática exige força, velocidade, resistência e disciplina. São características que, além de auxiliar no desenvolvimento da consciência corporal, também favorecem a autoestima e a saúde mental.
Em 2014, passei no concurso para professor efetivo na UFJF e fui trabalhar no curso de graduação em educação física do campus de Governador Valadares [MG]. Entre 2015 e 2021, estive à frente do Centro de Iniciação, Formação e Rendimento no Atletismo, projeto de extensão que idealizei voltado para jovens entre 7 e 17 anos. Por meio da iniciativa, eles praticavam as modalidades de corridas, arremesso e lançamento, saltos e marcha atlética.
Em 2021, com crianças do Centro de Iniciação, Formação e Rendimento no Atletismo, em Governador Valadares (MG)Assessoria de Imprensa da UFJF
Nesse período, cerca de 300 pessoas foram atendidas pelo projeto, inclusive aquelas dentro do espectro autista, com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade [TDAH] e também com problemas de ansiedade e depressão. Por meio da participação de alunos bolsistas da universidade, organizamos atividades dirigidas a cada faixa etária, além de levar os participantes para competições locais e regionais.
O projeto funcionava em um complexo esportivo localizado ao lado de uma escola pública, em uma região de grande vulnerabilidade social e com altos índices de violência. Entre as várias histórias que acompanhei, me lembro de uma aluna que, aos 13 anos, tinha que cuidar dos irmãos mais novos e por isso não conseguia participar dos treinamentos. A solução foi incluir os irmãos dela, na ocasião de 4 e 6 anos, nas atividades. Ela se mostrou muito responsável e comprometida com os treinamentos, algo que se traduziu no seu desempenho nas competições. Depois disso, passamos a receber menores de 7 anos no projeto, o que considero uma decisão acertada se considerarmos que as crianças têm sido introduzidas cada vez mais cedo na cultura digital.
As telas criam a ilusão de um mundo sem falhas: não gostou do vídeo, pausa; não gostou da imagem, rola a tela: não gostou da foto, apaga e faz outra. Com isso, crianças e jovens passam a tolerar cada vez menos as frustrações da vida. Daí a importância de praticar esportes. No processo de aquisição das habilidades motoras, desde a mais simples até a mais complexa, erramos. Embora o que se destaque sejam as vitórias, no esporte há muitos momentos de frustração e eles são importantes para o nosso crescimento pessoal. Infelizmente tem sido comum deparar com crianças que levam uma vida desprovida de movimento. Muitas nunca pularam corda, por exemplo.
Entre 2021 e 2024, participei de outro projeto de iniciação esportiva na extensão da UFJF, dessa vez na área da ginástica. Nele, os alunos, a maioria meninas, também em situação de vulnerabilidade social, tinham contato com todas as modalidades reconhecidas pela Federação Internacional de Ginástica [FIG]: rítmica, artística e acrobática e com as modalidades circences. O foco não era a competição ou a formação de equipes, mas o desenvolvimento das capacidades físicas, cognitivas e sociais de crianças entre 4 e 12 anos, tendo como diferencial a participação das famílias que eram incentivadas a acompanhar as aulas. Além de ampliar o conhecimento sobre a prática da ginástica, isso acabava fortalecendo o vínculo familiar e favorecendo a permanência das crianças no projeto.
Em 2025 minha vida deu uma guinada. Desde o início do ano sou professor e pesquisador da Academia da Força Aérea [AFA], instituição de ensino superior da Força Aérea Brasileira [FAB], localizada em Pirassununga, no interior de São Paulo. Atualmente, leciono educação física nos cursos de formação de oficiais da FAB, trabalho com o treinamento da equipe de atletismo e desenvolvo pesquisas na instituição.
Entretanto, não abandonei os projetos de iniciação esportiva. Atualmente, sou professor no Programa Forças no Esporte [Profesp] que atende crianças e jovens entre 6 e 18 anos em situação de vulnerabilidade social. Essa iniciativa, criada em 2003, é coordenada pelo Ministério da Defesa em parceria com outros ministérios. Em Pirassununga, atendemos cerca de 200 alunos da rede municipal de ensino de 8 a 12 anos de idade. Eles participam de atividades físicas extracurriculares que incluem modalidades do atletismo e de esportes coletivos, como vôlei e futebol.
Costumo contar para eles como me aproximei do esporte e qual foi a importância disso para minha trajetória. Tenho como meta fazer com que crianças e jovens se apaixonem pelo movimento e possam seguir com a atividade física ao longo da vida. Desejo que, assim como eu, eles tirem boas lições do esporte.
Fonte: https://revistapesquisa.fapesp.br/professor-de-educacao-fisica-mostra-para-criancas-e-jovens-em-situacao-de-vulnerabilidade-social-a-importancia-de-se-movimentar/