A importância de se falar sobre mudanças climáticas nas escolas

Guias apresentam estratégias de como educadores devem agir para ajudar estudantes em meio a eventos climáticos extremos

FOTO: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil – 22.05.2024FOTO: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil – 22.05.2024Estragos causado pela enchente em escola municipal do centro de Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul

Estragos causado pela enchente em escola municipal do centro de Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul

As escolas têm enfrentado um novo desafio: as mudanças climáticas. De acordo com o Unicef, mais de 1,17 milhão de estudantes brasileiros perderam aulas em 2024 por causa de eventos climáticos extremos. As enchentes no Rio Grande do Sul e a seca na região amazônica foram os principais motivos para a interrupção dos estudos.

10 foi a média nacional de dias letivos perdidos em 2024 por eventos climáticos extremos, segundo relatório da ONG Todos pela Educação

Além dos impactos estruturais, emergências climáticas podem causar impactos como o aumento da evasão e do abandono escolar, a interrupção da aprendizagem, a rotatividade escolar e o aumento da demanda por apoio psicossocial e de saúde.
Isso motivou a criação dos guias “Educação e crise climática” para orientar a atuação de redes e escolas da região Norte diante dos eventos extremos. O relatório é do Consórcio Interestadual Amazônia Legal, com apoio do Instituto Unibanco e do Unicef e a assistência da consultoria Vozes da Educação.

De acordo com os guias, os efeitos das mudanças climáticas estão crescendo na Amazônia Legal, de maneira mais constante e intensa. Entre 1991 e 2024, mais de 8.000 escolas foram danificadas ou destruídas por desastres ambientais na região. Além de enchentes e queimadas, o calor extremo gera desconforto térmico nos estudantes e a estiagem dificulta a entrega de água potável nas instituições.

25% da população atingida pelos eventos extremos na Amazônia Legal são menores de 14 anos

Segundo Carolina Fernandes, especialista em relações institucionais do Instituto Unibanco, falar sobre as mudanças climáticas é uma forma de reconhecer o impacto delas na vida dos estudantes e da comunidade escolar. “A escola reúne conhecimento científico, saberes do território e gestão pública. Integrar essa pauta ao currículo, à formação docente e à infraestrutura fortalece a resiliência das redes de ensino, reduz vulnerabilidades e protege o direito à educação, promovendo justiça social e ambiental”, disse ao Nexo Políticas Públicas.

Neste texto, o Nexo Políticas Públicas apresenta algumas das estratégias propostas nos guias, sobre como lidar com as mudanças climáticas nas escolas.

Gestão de risco

O primeiro guia “Educação e crise midiática” traz formas dos gestores educacionais identificarem os riscos de que eventos climáticos extremos afetem o calendário letivo. Dessa forma, a chance de que algo ruim aconteça deve ser analisado a partir das:

  • Ameaças, que são os eventos que podem acontecer e causar impactos negativos, como enchentes e secas;
  • Vulnerabilidades, que aumentam a chance das escolas sofrerem mais com um evento climático, como a qualidade da estrutura física e a situação socioeconômica da comunidade;
  • Capacidades de resposta, que é o conjunto de recursos, estratégias e apoios para enfrentar as emergências climáticas, como kits de higiene e a reorganização de aulas em casos extremos.

O guia afirma que a combinação entre riscos, ameaças, vulnerabilidades e a baixa capacidade de resposta acarretam nas emergências. A percepção sobre as boas práticas e os erros em eventos climáticos extremos anteriores ajuda no planejamento das ações nas escolas.

O texto faz uma separação de ações para fazer antes, durante e depois do desastre climático. A gestão de riscos acontece na pré-emergência, com etapas voltadas para a prevenção e mitigação e para a preparação aos eventos.

A prevenção e a mitigação servem para evitar os desastres e os grandes impactos. Algumas ações citadas para serem feitas nessa etapa são a revisão da infraestrutura escolar, como a qualidade dos telhados; o mapeamento de pontos críticos de deslizamento, como encostas e barreiras; e as condições de saneamento básico.

A preparação, por sua vez, são ações que podem ser planejadas e colocadas em prática caso eventos aconteçam. Dentre os exemplos, estão a atualização da lista de contatos importantes, como Defesa Civil, Conselho Tutelar, transporte escolar e responsáveis pelos estudantes; e o planejamento de rotas de acesso e prevenção em enchentes. A capacitação dos profissionais é necessária para evitar pânico entre os estudantes.

Durante a emergência climática, o foco dos gestores deve ser em proteger a vida e o bem-estar das pessoas. Essa etapa deve colocar o planejamento de ações em prática. Isso tudo em parceria com as Secretarias de Educação municipais e as coordenações regionais.

As ações necessárias para o momento dos eventos extremos são:

  • Suspender aulas, com a comunicação rápida as famílias;
  • Comunicar de maneira clara e empática o que está acontecendo e as orientações necessárias sobre proteção e direitos;
  • Ativar rede de apoio local, como Conselho Tutelar, postos de saúde e Defesa Civil;
  • Definir alternativas a abrigos nas escolas;
  • Fortalecer o vínculo com os estudantes.

Carolina Campos, diretora executiva do Vozes da Educação, afirmou ao Nexo Políticas Públicas que a suspensão das aulas é uma quebra do vínculo entre estudantes, professores e a comunidade escolar. “Esses impactos desorganizam o calendário escolar, comprometem a aprendizagem e ampliam desigualdades, sobretudo em regiões mais vulneráveis”, disse.

No pós-emergência, a atenção das escolas não só deve ser focada na retomada das atividades, mas também no cuidado e na escuta dos envolvidos. A escuta e o acolhimento de estudantes e profissionais é essencial, assim como a avaliação de impactos causados e a atualização de planos e protocolos contra eventos climáticos extremos.

As escolas também precisam rever as prioridades do currículo após esses eventos extremos e fortalecer a comunicação com a comunidade, para evitar a evasão e abandono escolar.

Logística e infraestrutura

O segundo guia de “Educação e Emergências Climáticas” é dedicado para melhorias na logística e infraestrutura das escolas, que geram impactos diretos e indiretos. Enquanto enchentes isolam comunidades e danificam prédios, o calor intenso reduz o bem-estar dos estudantes.

O entendimento da logística e infraestrutura faz parte da gestão de risco. Antes da emergência, a identificação de possíveis riscos na estrutura, a avaliação da localização da escola, a inspeção preventiva da infraestrutura e a mitigação dos problemas são exemplos de ações para esse setor.

“Quando a escola se organiza para cuidar das pessoas e do território, ela se torna um espaço de proteção, resiliência e esperança diante da crise climática”, afirmou Campos.

Durante a emergência climática, a equipe escolar precisa ficar atenta a áreas críticas. O acompanhamento a estruturas críticas é essencial, como danos a telhados e quedas de paredes e árvores. Além disso, é preciso proteger as pessoas e os espaços, com a sinalização de locais perigosos com fitas e cartazes e a rota de acesso.

Os gestores devem informar a Secretaria de Educação sobre os riscos e as medidas adotadas durante o evento climático extremo.

A retomada segura das atividades escolares depende da avaliação da segurança do edifício escolar, como a estrutura física e o funcionamento de sistemas de água e energia elétrica. Os profissionais também devem organizar estoques e abastecimento e registrar o ocorrido para os órgãos responsáveis.

Acolhimento e apoio psicológico

As emergências climáticas afetam diretamente na vida daqueles que compõem a comunidade escolar. Eventos extremos podem acarretar em medo, ansiedade, tristeza, isolamento e dificuldade de concentração, principalmente entre jovens. Isso pode resultar na interrupção dos estudos e o risco de problemas físicos e mentais.

Por isso, o terceiro guia de “Educação e Emergências Climáticas” traz o enfoque no acolhimento e no apoio psicológico aos estudantes e profissionais. Essas ações devem fazer parte da gestão educacional, com base na escuta qualificada e na promoção do bem-estar emocional.

Em janeiro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. A preocupação com a saúde mental dos estudantes e dos educadores é de responsabilidade compartilhada, através do Programa Saúde na Escola, do Sistema Único de Assistência Social e da rede de atenção psicossocial.

O guia separou as ações de acolhimento e psicossociais em três eixos de estratégia. O primeiro deles trata sobre a cultura do cuidado e a preparação institucional das escolas.

Além de oferecer formação psicossocial para os profissionais da rede escolar, as Secretarias da Educação devem criar planos individualizados de saúde mental para estudantes em situação de vulnerabilidade emocional. Também é importante mapear os equipamentos de apoio na região, para saber quais órgãos acionar em casos extremos – como UBSs (Unidade Básica de Saúde) e CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).

Ações preventivas também servem para ajudar estudantes e profissionais das escolas. Ao ter um ambiente saudável nas salas de aula, eles se sentem seguros para expressar sentimentos.

O segundo eixo de estratégia envolve a resposta psicossocial em situações de crise. A principal ação é o oferecimento de suporte imediato para estudantes e profissionais após os eventos extremos, que podem gerar reações emocionais intensas. Nesses momentos, a escola deve ser um espaço de escuta, acolhimento e conforto físico e emocional.

“Educadores podem apoiar os estudantes na elaboração das experiências vividas, conectando o que acontece em seus territórios ao conhecimento científico e à ação coletiva”, afirmou Carolina Campos, diretora executiva do Vozes da Educação.

Após a emergência climática, o guia traz o terceiro eixo de atuação, sobre a retomada e reconstrução comunitária. A reabertura das escolas deve ter um olhar atento para o reconhecimento e o apoio dos impactos emocionais dessa crise. Por isso, os gestores escolares devem fazer uma busca ativa da situação dos estudantes, para não promover a evasão escolar.

No entanto, o guia afirma que os educadores não devem ser os únicos a ter a função de escutar os receios dos estudantes. Isso pode acarretar na fadiga da compaixão – um estado de esgotamento físico, emocional e cognitivo que surge quando quem cuida não encontra tempo ou espaço para cuidar de si.

Fonte: https://pp.nexojornal.com.br/topico/2025/11/13/a-importancia-de-se-falar-sobre-mudancas-climaticas-nas-escolas?utm_medium=email&utm_campaign=Seleo%20da%20semana%20274&utm_content=Seleo%20da%20semana%20274+CID_ebeead46e7e5fb937c8ff3667093dc9e&utm_source=Email%20CM

24 de março de 2026
A importância de se falar sobre mudanças climáticas nas escolas
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