Em um ambiente informacional marcado pelo excesso de conteúdos, pela disseminação de desinformação e por diferentes formas de manipulação, a educação midiática assume papel importante na formação de crianças e jovens capazes de acessar, analisar e produzir informações de maneira crítica, ética e responsável. O fortalecimento dessas competências é central para a promoção da cidadania e da democracia.
Nesse contexto, a SECOM/PR (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o governo do Reino Unido e o Porvir, lançou nesta terça-feira (10) o Mapa Brasileiro da Educação Midiática. A plataforma organiza e dá visibilidade a 226 iniciativas desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil.
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O projeto nasceu de um processo colaborativo iniciado com a Consulta Pública sobre Educação Midiática, realizada entre 2023 e 2024. Ao todo, foram recebidas 496 inscrições de escolas, universidades, governos locais e organizações da sociedade civil. Em 2025, a curadoria final foi consolidada com apoio técnico do governo do Reino Unido e do Porvir.
“O objetivo é apoiar a construção de estratégias que ampliem o acesso à informação de qualidade, fortaleçam o uso responsável das tecnologias e contribuam para o enfrentamento da desinformação e para o fortalecimento da democracia”, destaca Tatiana Klix, diretora do Porvir.
Na abertura do evento, David Almansa, diretor do Departamento de Direitos na Rede e Educação Midiática da SECOM/PR, destacou que a ferramenta integra uma estratégia mais ampla de transformação da relação dos brasileiros com o ambiente digital.
Segundo David, o mapa também dialoga com a implementação dos currículos de educação digital e midiática. “O mapa não está solto dentro da nossa estratégia. Ele complementa um conjunto de iniciativas que já acontecem, como a implementação dos currículos de educação digital e midiática na educação básica”, explicou. Ele lembrou ainda que 2026 é o prazo para que essas diretrizes cheguem às salas de aula, e que o mapeamento pode servir de referência prática para gestores escolares.
Para o diretor, a alfabetização midiática é instrumento eficaz para enfrentar problemas que migraram para o ambiente digital, como violências online, racismo e misoginia, além de contribuir para a proteção de crianças e adolescentes.
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Inédito no país, o Mapa Brasileiro da Educação Midiática que trabalham pensamento crítico, análise da mídia, produção de conteúdo, checagem de fatos e letramento digital. O site também apresenta referências para educadores, gestores públicos, pesquisadores e formuladores de políticas.
O levantamento revela diversidade conceitual e capilaridade regional. Segundo a jornalista e consultora em educação midiática Cristiane Parente, o campo no Brasil se estrutura em quatro eixos principais: educomunicação (com forte tradição latino-americana), mídia-educação (historicamente ligada ao audiovisual), alfabetização midiática e informacional (conceito difundido pela Unesco) e educação midiática.
Segundo a jornalista e consultora em educação midiática Cristiane Parente, o campo no Brasil se estrutura em quatro eixos principais: educomunicação (com forte tradição latino-americana), mídia-educação (historicamente ligada ao audiovisual), alfabetização midiática e informacional (conceito difundido pela Unesco) e educação midiática.
“Nós tivemos também uma força muito grande das universidades e dos projetos de pesquisa e extensão. Isso mostra como a nossa universidade é importante e como devemos valorizar a pesquisa e as universidades brasileiras. As universidades públicas e também as privadas têm a sua importância”, afirmou.
Ela aproveitou o momento para rebater críticas históricas direcionadas ao ambiente acadêmico, reforçando que a produção de conhecimento é a base para uma sociedade mais crítica: “Precisamos valorizar e acabar com essa história de dizer que em universidade se faz ‘balbúrdia’ ou ‘baderna’. Não. (Ali) se faz pesquisa, se faz extensão e se colocam as pessoas para pensar, para refletir e para acabar com a desinformação.”
Tatiana, do Porvir, destacou a diversidade de projetos. “As iniciativas mapeadas envolvem universidades, institutos federais, escolas, governos locais e organizações da sociedade civil e contemplam múltiplos formatos, como formações de professores, oficinas, pesquisas, metodologias pedagógicas, cineclubes, produtos midiáticos e materiais didáticos”, explica. A plataforma permite buscas por região, tipo de instituição, formato de aplicação e abordagem metodológica. O mapa está disponível gratuitamente neste link.
Para entender a educação midiática no Brasil, o Mapa organiza as iniciativas de acordo com a maneira como são ensinadas. O mapeamento reúne ações que vão da análise da mídia e da checagem de fatos à produção de conteúdos, articulando estratégias que estimulam tanto a leitura crítica da informação quanto o protagonismo e a autoria de crianças, jovens e educadores.
A plataforma permite buscas por região, tipo de instituição, formato de aplicação e abordagem metodológica. Também organiza as experiências segundo as estratégias adotadas, da análise crítica da mídia à produção de conteúdos, evidenciando tanto o desenvolvimento da leitura crítica quanto o protagonismo de estudantes e educadores.
O levantamento destaca ainda projetos alinhados a temas como cidadania digital, uso seguro da internet, acesso a bens culturais e divulgação científica, reforçando o papel da educação midiática na promoção de direitos e na ampliação do acesso à informação qualificada.
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Durante sua participação no webinário, Antônia Alves, professora adjunta da UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso) e coordenadora do projeto Educom.Indígena, detalhou o projeto selecionado pelo mapeamento. A iniciativa se destaca por estimular a produção de podcasts e a reflexão consciente sobre o uso da tecnologia nos territórios.
Antônia destacou a complexidade da região. “Se já é difícil trabalhar com povos indígenas dentro do território de um só povo, imagine em um lugar onde temos a presença de 42 povos”.
Segundo ela, os estudantes assumiram papel de mediadores tecnológicos, enquanto a equipe acadêmica precisou ajustar seus tempos e metodologias à dinâmica comunitária. “O nosso tempo é diferente do tempo deles”, explicou. Nesse contexto, o aprendizado digital acontece de forma coletiva e intergeracional.
Essa dinâmica comunitária reflete uma visão onde “a comunidade está dentro da escola”, evidenciando que não há separação entre o ambiente de ensino e a vida na terra indígena. Enquanto nos centros urbanos a escola costuma ser um espaço isolado da rotina familiar, nessas comunidades o aprendizado é essencialmente intergeracional.
Fundadora da COAR Notícias, Marta Alencar explicou como a iniciativa piauiense que une checagem de fatos e educação midiática é um verdadeiro exemplo de como a educação midiática pode ser adaptada para contextos de “deserto de notícias”. Criado em 2020, o projeto nasceu sob o impacto do trágico caso de Fabiane Maria de Jesus, que, em 2014, foi torturada e morta após ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças em um boato que circulou no litoral paulista.
Em sua fala durante o webinário, ela mencionou que a COAR tem como uma de suas qualidades o trabalho de adaptação de linguagem aos contextos locais. Ao utilizar áudios e expressões regionais, como no manual “Arriégua! Olhe as fake news”, o projeto consegue dialogar com pessoas com pouco ou nenhum letramento, alcançando públicos que, muitas vezes, são ignorados pelo jornalismo tradicional dos grandes centros.
O impacto dessa abordagem é perceptível em relatos que vão desde professores que adotam o material em sala de aula até caminhoneiros que, sensibilizados por áudios de checagem, decidiram buscar a vacinação. Mesmo com recursos limitados, a iniciativa já distribuiu mais de 500 exemplares físicos de seu guia em quatro estados, além de manter uma presença digital, fato que chegou a inspirar campanhas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Entre as iniciativas destacadas estão:
– Saúde na Floresta (PA), da Rede Mocoronga de Comunicação Popular, que forma jovens comunicadores ribeirinhos e indígenas, articulando saúde, educação e sustentabilidade;
– Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis (SC), que há 24 anos democratiza o acesso à cultura e promove formação audiovisual para professores e estudantes;
– Vozes Daqui Parelheiros (SP), agência de comunicação que conecta juventudes, saberes ancestrais e ações de reflorestamento no extremo sul da capital paulista.