Metodologias ativas desenvolvem o senso coletivo e o conhecimento, afirma Fraulein Vidigal de Paula.
A aprendizagem “mão na massa”, também conhecida como aprendizagem criativa, é uma metodologia ativa que consiste em construir o saber na prática. No processo, o contexto, as habilidades e diferenças dos envolvidos são trabalhados juntamente com a teoria. Atividades como a criação de jogos, recortes, receitas culinárias para o aprendizado de unidades de medida e até fotografias caracterizam-se como exemplos dessa vertente da educação.
As metodologias ativas de aprendizagem são uma corrente da técnica pedagógica que se baseia no desenvolvimento das habilidades, e menos na transmissão tradicional do conhecimento. Autores como o estadunidense John Dewey, o brasileiro Paulo Freire — referência na educação do País — e o suíço Jean Piaget são nomes que ajudaram na construção desse modelo, ainda que não usassem o conceito em seus estudos.
O modo de ensinar mais tradicional se baseia na construção de uma hierarquia, na qual o educador é o centro do aprendizado e aquele que detém a sabedoria. Os alunos, por sua vez, seriam receptores das informações, dadas em aulas expositivas – de forma verbal —, e teriam o dever de memorizar o que foi passado. As diferenças individuais não são consideradas e busca-se o padrão. Segundo Paulo Freire, essa vertente é chamada de educação bancária.
O avanço da tecnologia e o aparecimento de novas dinâmicas sociais e necessidades, como a sustentabilidade e a inclusão, abriram caminho para outro estilo de educar, com o desenvolvimento de outras atividades. Fraulein Vidigal de Paula, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), defende o deslocamento do estudante para o papel de protagonista: “Esse aspecto facilita o processo de aprendizagem, quando você parte também do princípio de que o propósito da educação não é só favorecer a aquisição de alguns conhecimentos prévios, armazenados pela cultura, mas também transformar e empoderar”.
Nas metodologias ativas, os educandos são incentivados a ter consciência de que estão em um processo de troca de informações e construção do entendimento sobre o mundo. “Elas vão levar em conta esse indivíduo, não só como alguém que possui um cérebro, um conjunto de olhos e ouvidos e mãos para registrar. A intenção é mobilizar esse organismo por inteiro.” Entretanto, Fraulein destaca que o objetivo não é deixar os alunos resolverem tudo sozinhos, mas fornecer uma base teórica que cultive as ideias.
Para a professora, a aprendizagem “mão na massa” desafia o aprendiz a pensar as propostas de outras maneiras, o que o torna ativo na aprendizagem: “Ele tem que fazer algo, realizar uma atividade que consiste em resolver um problema já pré-moldado, uma situação pensada, problemas abertos em que se vai sair da sala de aula”. O termo foi proposto por Mitchel Resnick, cientista de computação e professor da cátedra Lego Papert de Pesquisa de Aprendizagem no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seymour Papert, Jean Piaget, Paulo Freire e Maria Montessori o inspiram nessa linha de pesquisa, que entende que o corpo teórico (a educação) está em constante mudança.
O estilo possui quatro fundamentos: projetos (as atividades desenvolvidas), paixão (a criação de conexões positivas entre o aluno e o conteúdo), pares (estímulo ao trabalho em grupo, comunicação, escuta e expressão) e pensar brincando (experimentação lúdica).
Fraulein entende que a imprevisibilidade nas relações sociais é um benefício para o aperfeiçoamento de habilidades socioemocionais. “Digamos que o conjunto das mais variadas emoções pode vir à tona e ser mobilizado ali. Elas (as emoções) vão também exigir que as pessoas envolvidas se conheçam melhor, lidem com alguém que tem dificuldades e o outro que tem mais habilidades e também negociar o processo”, explica.
Segundo ela, é essencial que o educador tenha contato com a aprendizagem “mão na massa” desde a sua formação, como a oferta de recursos para o trabalho: “Se tem o ensino para alguém das metodologias ativas, o processo de formação dele deve passar pelo uso dessas mesmas estratégias formativas. Também há ali um adulto em processo de aprendizagem”. As práticas podem ser feitas durante a graduação, por meio de cursos ou pela formação continuada — atualização e melhoramento dos conhecimentos docentes, por exemplo.
Fonte: https://jornal.usp.br/radio-usp/pratica-aliada-a-teoria-como-e-o-ensino-ludico-e-criativo/