Pressão do agro altera conteúdos de livros escolares, denunciam editores

O manual do professor de um livro didático para Ensino Médio explica que alguns temas costumam gerar debates entre visões conflitantes. Na edição de 2020 da obra, era citado o caso dos agrotóxicos, “assunto tão polêmico que, dependendo do grupo de interesse, muda-se até o nome dado ao objeto”. A versão do livro que chega às escolas públicas em 2026 prova do próprio veneno: nela, a palavra “agrotóxicos” foi banida, dando lugar ao eufemismo “defensivos agrícolas”.

A mudança não é questão de estilo. Aos Fatos ouviu, sob a condição de anonimato, 12 trabalhadores do mercado editorial. Todos denunciaram sofrer pressão para retirar dos livros escolares conteúdos verdadeiros, mas considerados negativos para o agronegócio.

“O trabalho dos autores é sempre muito colado na ciência nacional. Foi pedido que houvesse a mitigação de uma abordagem mais incisiva”, confirma Maria Cecília Condeixa, presidente da Abrale (Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos).

Além dos agrotóxicos, os pedidos de alteração afetam principalmente conteúdos sobre desmatamento, queimadas, mudanças climáticas, consumo de água, conflitos agrários e escravidão contemporânea, que são trabalhados nas disciplinas de Geografia, Biologia, História e Ciências, no Ensino Médio e no Fundamental 2 (6º ao 9º ano).

Os depoimentos colhidos pelo Aos Fatos também apontam que preocupações comerciais fizeram com que algumas editoras cedessem a apelos do lobby. O caso mais citado é o da Somos Educação — dona das marcas Ática, Saraiva, Scipione, Anglo e Pitágoras —, mas os relatos mencionam também FTD, Poliedro e Santillana (responsável pela Moderna e pelo sistema UNO).

“Comecei a receber orientações como ‘tome cuidado com o meio ambiente’”, desabafa um profissional com mais de 20 anos de mercado e passagem por grandes editoras. “Não pode falar que as queimadas têm a ver com as pastagens. Se for mencionar, tem que colocar a fonte”, exemplifica.

O editor lembra que uma premissa de todo livro didático é tratar dos assuntos de forma neutra, mas alguns temas se tornaram tabus nos últimos anos. O problema, que começou com discussões ligadas a gênero e sexualidade, se estendeu às pautas socioambientais.

O aumento do patrulhamento é atribuído à atuação da Donme (De Olho no Material Escolar), associação fundada em 2021 e financiada por grandes players do agronegócio, como revelou a Repórter Brasil. A ONG tem como objetivo “contribuir para uma educação positiva e atualizada sobre o agro” e está presente em diversos estados do país — promovendo parcerias com órgãos públicos, visitas de estudantes a fazendas e ações de lobby junto a parlamentares.

 Imagem mostra uma página de material didático com dois blocos de texto em destaque. Na parte superior, há o título ‘3.5 O uso de agrotóxicos’, seguido de parágrafos explicativos sobre fertilizantes nitrogenados, Revolução Verde e a definição legal de agrotóxicos, com citação da Lei nº 7.802/1989 ao final. Na parte inferior, aparece um quadro destacado em fundo claro com o título ‘O uso de defensivos agrícolas’, que apresenta texto semelhante, mas usa o termo ‘defensivos agrícolas’ e cita o Decreto nº 4.074/2002 como referência legal.
Imagem mostra uma página de material didático com dois blocos de texto em destaque. Na parte superior, há o título ‘3.5 O uso de agrotóxicos’, seguido de parágrafos explicativos sobre fertilizantes nitrogenados, Revolução Verde e a definição legal de agrotóxicos, com citação da Lei nº 7.802/1989 ao final. Na parte inferior, aparece um quadro destacado em fundo claro com o título ‘O uso de defensivos agrícolas’, que apresenta texto semelhante, mas usa o termo ‘defensivos agrícolas’ e cita o Decreto nº 4.074/2002 como referência legal.
Livro de ciências da natureza para ensino médio da editora Scipione, marca da Somos Educação, deixou de usar a palavra “agrotóxicos” entre a edição de 2020 e a mais recente (Reprodução).

No caso do mercado editorial, a estratégia da associação ganhou força em 2022 e inclui desde a produção de relatórios e eventos questionando a qualidade dos livros didáticos até o incentivo às denúncias de pais de alunos, seguindo fórmula similar à do movimento Escola Sem Partido.

“Mapearam todo o material didático e começaram a cair pesado para cima das editoras, mandando emails enormes dizendo o quanto o agronegócio era bom”, relembra uma profissional do mercado editorial. “O que me deixou assustada foi que não houve uma argumentação da editora para tentar barrar.”

“Para evitar críticas e comentários do Donme, a direção solicitava muitas alterações em nossos materiais e até proibia a abordagem de alguns conteúdos”, afirma outro depoimento.

“Pouquíssimas pessoas hoje têm coragem de falar do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra]. Um material que mostrar a bandeira do MST vai causar confusão”, exemplifica outra profissional com anos de mercado.

Ao Aos Fatos, a entidade negou que peça “a exclusão de temas sensíveis ou desafiadores” e afirmou que sempre esteve aberta ao diálogo e ao contraditório técnico.

“Nossa metodologia consiste em analisar conteúdos pontuais, sempre com base em dados verificáveis, fontes oficiais e referências academicamente reconhecidas, apontando eventuais imprecisões, generalizações ou desatualizações”, explica a associação em nota.

A associação diz ainda que “decisões editoriais não decorrem exclusivamente da atuação da De Olho, mas de um ecossistema amplo de atores” e lembra que é “uma organização sem fins lucrativos e não possui poder decisório sobre os conteúdos finais”. A íntegra do posicionamento pode ser lida no final deste texto.

Além dos interesses mercadológicos, os trabalhadores ouvidos pelo Aos Fatos também citam o alinhamento ideológico entre a cúpula das casas editoriais e o agro como outra explicação para a reação tímida das editoras à ofensiva.

“O corpo editorial tem um olhar mais crítico e alinhado à ciência. São essas pessoas que cedem com medo de perder o emprego. Muitos donos não cedem: eles concordam”, avalia um funcionário do alto escalão, explicando que o topo da hierarquia das editoras costuma atrair investidores sem formação em educação.

Ilustração composta por três elementos alinhados horizontalmente sobre fundo branco. À esquerda, há uma vaca preta e branca. No centro, aparece um trator desenhado de forma simplificada, na cor laranja, com rodas circulares pretas e cinzas. À direita, há um broto de planta com duas folhas verdes emergindo de um pequeno monte de terra marrom.

‘Desinformação sobre o agro’

A ofensiva da Donme sobre o mercado editorial acusa os livros escolares de conterem “desinformação” ou “erros factuais” sobre o agro. A retórica é baseada em um estudo sem caráter científico, pago pela ONG e produzido pela FIA (Fundação Instituto de Administração).

documento conclui que 50% das menções ao agronegócio nos livros escolares são “negativas” ou “fortemente negativas”, atribuindo a esses conteúdos maior probabilidade de apresentar “elementos textuais com viés político-ideológico, informações imprecisas e informações ausentes”. O estudo não explica quais critérios adotou para classificar a qualidade das menções ao agro e não traz um exemplo sequer do que considera “desinformação”.

No vocabulário do lobby do agronegócio, porém, o termo “desinformação” tem sido usado de forma enganosa para minimizar as críticas ao seu impacto socioambiental. Um exemplo está na relação entre o setor e o desmatamento — considerado no estudo da FIA como “de longe a menção negativa mais presente” nos livros escolares.

“Você já ouviu dizer que a produção de animais nos pastos do Brasil é responsável pelo desmatamento? Pois é, é comum a pecuária ser criticada por estar ligada ao desmatamento, mas essa não é a realidade”, afirma vídeo desinformativo produzido para a Donme pela Somos Educação, editora que mantém parceria com a ONG.

Página de material impresso com fundo em tom bege. No canto superior esquerdo, há o título ‘O agro é pop?’ destacado em uma faixa roxa. Abaixo do título, aparece um texto em colunas que descreve um evento relacionado ao setor agropecuário e à produção de materiais didáticos. À direita, há uma fotografia que mostra uma colheitadeira verde em uma área rural ampla, com grande quantidade de grãos amarelados espalhados no chão e no reboque, sob um céu claro.
Trecho de publicação de circulação interna da Somos Educação divulga lançamento de vídeos produzidos com a Donme (Reprodução)

Aos Fatos checou que, ao contrário do que alega o conteúdo, que utiliza dados desatualizados e fora de contexto, levantamento do MapBiomas aponta que, desde 1985, mais de 60% das novas pastagens no Brasil foram criadas sobre áreas de floresta ou cerrado. No caso da Amazônia, 90% das áreas desmatadas são destinadas a atividades agropecuárias, com a criação de gado ocupando papel de destaque, aponta relatório do projeto Amazônia 2030.

O vídeo enganoso está publicado na Agroteca, biblioteca virtual criada pelo Donme. A associação divulga que o repositório reúne conteúdos “baseados em fatos e dados científicos” com curadoria da Esalq-USP (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo), mas a retórica sobre o desmatamento não é a única desinformação encontrada ali.

Outro exemplo é a afirmação, já desmentida pelo Aos Fatos, de que o metano produzido pelo gado não teria impacto no aquecimento global, pois seria reabsorvido pelo pasto na forma de carbono.

Responsável técnica pela curadoria da Agroteca, ao ser confrontada com as desinformações identificadas no repositório, a Esalq/USP disse que sua atual gestão reviu a coordenação do convênio com a Donme e que “as atividades conjuntas serão desenvolvidas com equipe qualificada, vinculada à Comissão de Cultura e Extensão”.

Já a associação disse que, em 2026, “está em curso um planejamento de reavaliação dos mais de 500 conteúdos disponíveis, com o objetivo de verificar sua atualização, aprimorar a catalogação, indicar faixas etárias, relação com a BNCC e ampliar conteúdos”. Também discordou do selo “falso” atribuído pelo Aos Fatos ao vídeo feito em parceria com a Somos (leia mais).

Apesar dos erros e distorções no conteúdo da Agroteca, uma profissional freelancer ouvida pelo Aos Fatos disse que já se deparou com o link desse repositório em uma lista de referências que recebeu de uma editora, onde costumam estar apenas documentos como o Estatuto da Criança e do Adolescente e a BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

A disseminação de desinformação pelo agro, porém, não significa que conteúdos manifestamente falsos estejam chegando aos livros escolares. Nos bastidores do processo editorial, trabalhadores travam uma guerra silenciosa para tentar proteger os materiais, buscando respaldo na legislação vigente e construindo estratégias de resistência.

Deixar explícitas as fontes que embasam as críticas, equilibrar menções negativas ao agronegócio com conteúdos positivos e transferir questões sensíveis dos textos principais para os exercícios a serem feitos em classe são algumas das formas encontradas para minimizar os danos.

“Existem coisas que são negociáveis, outra coisa é fake news, propaganda do agro, racismo, perseguições contra minorias. No meio editorial, quando vem pressão acima, tem quem aceite, mas trabalhamos com educação. Cada um tem o seu limite”, desabafou um entrevistado.

Ilustração com quatro livros estilizados dispostos horizontalmente sobre fundo branco. Eles estão desenhados de maneira simplificada, na cor rosa intenso, com detalhes em linhas cinzas e pretas.

‘Você não quer seu certificado?’

No dia 5 de abril de 2022, profissionais do mercado editorial compareceram em peso a um debate promovido pela Donme no salão nobre da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Políticos chegaram a telefonar para a direção de editoras pedindo que enviassem representantes, o que garantiu a alta adesão do setor.

Para defender o agro, o evento reuniu nomes como o então presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Celso Moretti, o ex-deputado Xico Graziano e o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

A produtora rural Letícia Jacintho, presidente da Donme, liderou a participação da entidade, que apresentou trechos de livros didáticos considerados problemáticos pelo movimento.

“Por que vocês têm que falar disso?”, perguntou diante de um conteúdo que trazia uma notícia sobre a descoberta de trabalho análogo à escravidão em uma fazenda — de 1995 a 2024, a agropecuária foi responsável por 3 em cada 4 resgates de trabalhadores nessas condições no Brasil.

“Teve um vídeo falando que o Cerrado era um lugar inóspito até que, de repente, veio o agro e deixou tudo verde com a soja”, relembra uma editora. Na plateia estavam biólogos, geógrafos e outros educadores que estudaram a importância desse ecossistema para o equilíbrio do clima e a sobrevivência de inúmeras espécies e comunidades tradicionais.

Aflita com o que testemunhava, uma pessoa se levantou para tentar sair do evento, mas foi seguida por uma organizadora. “Você vai embora? Qual seu nome? Não quer seu certificado?”

“O tom que eles usam está entre uma leve ameaça e um estender a mão. É uma coisa ambígua”, define outra entrevistada, que foi abordada por representantes da Donme durante uma edição da feira de educação Bett Brasil.

A associação diz que sua atuação “é orientada por princípios de conduta ética, respeito e cordialidade” e que desconhece os episódios de pressão relatados pelos entrevistados, afirmando que eles não condizem com sua prática institucional (leia a íntegra).

Ilustração de livro aberto visto de forma estilizada, sobre fundo branco. O livro é representado em cor rosa intensa, com linhas cinzas indicando as páginas e a lombada, posicionado levemente inclinado. Ao redor do livro, há uma cerca composta por duas linhas finas, com vários traços verticais em tons de rosa e laranja distribuídos ao longo do contorno.

Escola paga com soja

Com o incômodo sentido pelos educadores, o evento da Fiesp não gerou impacto imediato no mercado editorial. Isso se deu quando o lobby do agro passou a visitar pessoalmente editoras, onde apresentava relatórios analisando negativamente os livros.

“Um dia chegaram duas mulheres super bem vestidas, com joias bem bonitas, e pediram para conversar com o nosso chefe. Foi uma conversa meio privada, no cantinho do escritório”, lembra um profissional então em início de carreira.

“Eles têm contato com a alta diretoria, e a gente recebe o que tem que fazer para ajustar”, afirma uma editora.

Um dos relatos dá conta que uma empresa chegou a submeter seus livros voluntariamente para avaliação da Donme, como “política de boa vizinhança”. Após o feedback da ONG, para evitar críticas, a direção “solicitou muitas alterações e até proibiu a abordagem de alguns conteúdos”.

Mais ou menos na mesma época começaram a ganhar força também as reclamações vindas de escolas e pais, que alegavam que seus filhos sofriam bullying por causa dos livros.

“Você está dizendo que o agro desmata, mas meu filho paga a escola com soja”, teria reclamado um pai à diretora de um colégio, que repassou a queixa à editora responsável pelo material escolar.

“Já recebi críticas de pais em relação aos materiais que eu trabalhei e acho que essas críticas vieram indiretamente do pessoal da De Olho”, afirmou uma profissional, explicando que as reclamações pinçavam trechos muito específicos dos livros e questionavam em tom agressivo. “Foi uma situação super desgastante.”

A associação garante que “pais e escolas não atuam em nome da associação, nem se dirigem às editoras sob sua chancela” (leia a resposta).

Dançando conforme a música

Com as queixas, escolas de municípios onde o agronegócio é forte começaram a ameaçar que iriam substituir os materiais, o que ajuda a explicar a capitulação das editoras. Temendo prejuízos financeiros ou ataques nas redes sociais, as empresas passaram a orientar as alterações nos conteúdos.

No caso dos livros produzidos para o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), que possui um processo de avaliação rigoroso antes de autorizar a compra pelo poder público, o impacto foi pequeno. O mesmo vale para as coleções destinadas a colégios de elite, assinadas por autores de renome que costumam se opor às interferências. Já as apostilas dos sistemas de ensino privado se mostraram mais vulneráveis.

Todos os materiais escolares brasileiros precisam seguir a base curricular, definida pela BNCC. A vulnerabilidade dos sistemas de ensino consiste na falta de fiscalização do cumprimento da legislação, já que não existe um órgão responsável por avaliar as apostilas, que têm circulação restrita.

“Os sistemas de ensino dançam conforme a música”, resume uma editora, destacando a flexibilidade desses materiais em se adaptar às necessidades dos clientes.

“Os grupos que coordenam ou patrocinam os sistemas de ensino podem colocar no material didático o enfoque que quiserem”, critica Celso Napolitano, presidente do Sindicato dos Professores de São Paulo, que compara a promoção de uma imagem “mais simpática” ao agronegócio nos livros a ações de merchandising adotadas nas novelas.

Para o educador, o maior risco do modelo é permitir a grupos que estão no poder “levar uma visão única, exclusiva”, para as novas gerações.

Os sistemas de ensino tornaram-se um dos filões mais lucrativos do mercado editorial. Os contratos negociados com os colégios costumam incluir não apenas o material didático de todas as disciplinas, para todas as séries, mas também consultorias e treinamentos de professores. Parte dos valores que os pais pagam pelos pacotes de apostilas acabam retornando às escolas.

“Os sistemas de ensino são muito interessados em agradar os clientes e viram um leilão”, diz uma entrevistada. “As empresas não querem perder nenhuma escola. Se querem entrar numa escola adventista, tiram a teoria da evolução do livro”, complementa outro trabalhador do mercado editorial. “Todo editor odeia fazer uma customização que nega a ciência ou coloca uma visão religiosa, mas trabalha para uma empresa”, lamenta.

A expansão desse modelo para a rede pública preocupa os educadores. Segundo os depoimentos, cresceu nos últimos anos o número de estados e municípios que abriram mão do PNLD, que é federal, para lançar licitações. “As empresas têm pessoas prospectando editais, que vão às prefeituras, perguntam o que precisam, e escrevem o material sob medida.”

No caso dos municípios, porém, o risco de judicialização das licitações limita o descumprimento da legislação que define a base curricular.

“O que segura a nossa onda é a BNCC, mas sei que estão tentando mudar isso também. Se conseguirem, acabou toda a garantia que temos”, alerta uma educadora.

Outro lado

Além da Donme e da Esalq/USP, Aos Fatos pediu posicionamento também para as editoras citadas e para a FIA.

Em comunicado, a Somos Educação declarou que “todo o material didático é atualizado seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”. A empresa disse também que “se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização.”

Na mesma linha, a Santillana afirmou que “todos os seus materiais educacionais são desenvolvidos com base em rigor científico, na estrita observância das diretrizes curriculares vigentes no país e em sólidos processos editoriais” e que “não tem conhecimento da existência de desinformação científica em seus conteúdos nem de orientações ideológicas em seus processos editoriais”.

O Poliedro, por sua vez, disse que respeita a pluralidade de opiniões e visões existentes na sociedade e que “adota uma postura institucional de escuta em relação aos diferentes públicos”, mas ressalta que essa postura “não se confunde com a definição editorial dos conteúdos” (leia a íntegra).

Já a FTD declarou, em nota, que “mantém diálogo aberto com diferentes setores da sociedade, incluindo movimentos e entidades representativas, como parte de seu processo contínuo de escuta e aprimoramento editorial” e que “eventuais ajustes ou atualizações são conduzidos exclusivamente com base em critérios técnicos, pedagógicos e de conformidade curricular”.

A FIA não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto, e este texto será atualizado em caso de posicionamento.

Posicionamento da De Olho no Material Escolar

A Donme é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, laica e apartidária. Com quatro anos de atuação, tem como objetivo institucional contribuir para a melhoria da qualidade da educação brasileira, por meio de um ensino pautado em evidências científicas, conectado à vivência prática e orientado a resultados de aprendizagem, de modo a ampliar as oportunidades de desenvolvimento pleno, produtividade e prosperidade das futuras gerações.

Um diferencial central da associação, em relação a outras instituições do campo educacional, é o seu foco na conexão entre educação e setor produtivo, compreendendo que essa aproximação, quando feita de forma responsável, transparente e baseada em dados, contribui para tornar o processo educacional mais significativo para os estudantes. Nesse contexto, o agronegócio aparece com frequência em nossas iniciativas por se tratar de um setor altamente relevante e estruturante da economia brasileira, mas não de forma exclusiva.

O que nos mobiliza atualmente é um cenário educacional profundamente desafiador, amplamente reconhecido por indicadores oficiais e avaliações internacionais. Para citar apenas alguns dados públicos e amplamente consolidados:

– 40,8% das crianças brasileiras não estavam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental (Saeb – Ideb, 2023);

– O Brasil ocupa a 55ª posição em matemática entre 58 países avaliados ao final do 4º ano (TIMSS, IEA, 2023);

– Os estudantes brasileiros estão na 39ª posição em leitura entre 43 países ao final do 4º ano (PIRLS, IEA, 2021);

– Nenhum estado brasileiro atingiu a meta nacional de 5,2 no ensino médio (Ideb, 2023).

É nesse contexto que a Donme reuniu especialistas multidisciplinares, em áreas como formação docente, alfabetização, violência escolar e avaliação educacional – para elaborar diagnósticos e propostas que contribuam para o debate público, inclusive no âmbito do novo Plano Nacional de Educação, cujo texto foi aprovado na Câmara dos Deputados e segue em tramitação no Senado Federal.

ABAIXO COMENTÁRIOS PARA AS PERGUNTAS:

1) Sobre alegação de pressão para retirada de conteúdos “negativos” ao agronegócio.

Resposta: Nossa metodologia consiste em analisar conteúdos pontuais, sempre com base em dados verificáveis, fontes oficiais e referências academicamente reconhecidas, apontando eventuais imprecisões, generalizações ou desatualizações.

Não propomos a exclusão de temas sensíveis ou desafiadores e sempre estivemos abertos ao diálogo e ao contraditório técnico.

2) Sobre contatos com editoras por meio de eventos, e-mails, visitas e relatórios.

Resposta: A comunicação da De Olho com editoras, autores e conteudistas é pautada pelo diálogo, transparência e escuta ativa. Apresentamos pareceres e sugestões de caráter consultivo, sem qualquer poder regulatório ou pretensão de imposição.

Nosso objetivo é contribuir tecnicamente para a melhoria da qualidade da educação, sempre abertos a contrapontos e debates qualificados.

3) Sobre a alegação de que alterações ocorreram por interesses mercadológicos.

Resposta: Decisões editoriais não decorrem exclusivamente da atuação da De Olho, mas de um ecossistema amplo de atores. As recomendações da associação são exclusivamente técnicas, baseadas em evidências científico-acadêmicas e dados oficiais, amplamente utilizados inclusive pelo poder público.

A De Olho é uma organização sem fins lucrativos e não possui poder decisório sobre os conteúdos finais, limitando-se a sensibilizar e recomendar, nunca impor.

4) Sobre relatos de medo, intimidação ou abordagem inadequada.

Resposta: A atuação da De Olho é orientada por princípios de conduta ética, respeito e cordialidade. Não temos conhecimento de episódios como os relatados, que não condizem com nossa prática institucional.

Ainda assim, estamos totalmente à disposição para ouvir diretamente os envolvidos, esclarecer eventuais mal-entendidos e, se necessário, nos retratar por qualquer desconforto causado.

5) Sobre o relatório produzido pela FIA (Fundação Instituto de Administração).

Resposta: O trabalho foi desenvolvido por especialistas da FIA/USP, com metodologia apresentada pela própria instituição, total autonomia técnica e assessoria especializada. A isenção institucional foi condição básica para o desenvolvimento do projeto.

As centenas de unidades de referência analisadas — trechos que contêm palavras-chave relacionadas ao setor agro — possuem documentação metodológica específica e podem ser apresentadas sempre que necessário.

O principal resultado do estudo aponta que mais de 85% das unidades de referência identificadas não possuíam vínculo com referência bibliográfica, sendo classificadas como autorais pelos próprios autores do projeto. Essa constatação dialoga diretamente com uma das principais bandeiras da Associação: que todas as informações apresentadas aos estudantes tenham base científica ou em fontes oficiais, ainda que em linguagem simples e acessível.

6) Sobre críticas de educadores ao relatório.

Resposta: O estudo teve como foco verificar se as menções apresentam fontes científicas e se estão atualizadas em relação à realidade do campo. Não se propõe o uso de textos acadêmicos no ensino fundamental ou médio, mas sim uma melhor contextualização dos temas, sempre acompanhados de fontes científicas atualizadas e rastreáveis.

A linguagem deve ser adequada a cada faixa etária ou nível escolar, o que é essencial para o aprendizado. A existência de uma referência científica como base para discussão de veracidade ou atualidade não implica a transcrição direta de trabalhos científicos para o material didático.

7) Sobre o encontro com editoras realizado na Fiesp

Resposta: Em relação a um encontro com editoras ocorrido há alguns anos na Fiesp, foram apresentadas críticas a conteúdos exibidos sobre o Cerrado e sua relação com atividades produtivas.

Em nossas apresentações, não divulgamos qualquer conteúdo que não esteja fundamentado em fontes científicas atualizadas e rastreáveis. Defendemos que todos os biomas sejam amplamente estudados em sala de aula, assim como a importância de seu uso sustentável, com base em evidências científicas.

Sugerimos que a abordagem dos biomas permita aos alunos compreender suas diversidades, peculiaridades e a forma como diferentes atividades econômicas interagem com cada um deles.

8) Sobre falas atribuídas à presidência da associação em evento.

Resposta: A associação reconhece a existência de práticas criminosas no agronegócio, assim como em outros setores produtivos, e jamais defendeu que esses temas deixem de ser abordados.

O que se defende é uma abordagem equilibrada e contextualizada, que trate desafios reais, mas também apresente boas práticas, inovação, tecnologia e desenvolvimento, oferecendo aos estudantes uma visão mais completa e responsável.

9) Sobre comparação com outros movimentos e atuação de pais e escolas.

Resposta: A De Olho no Material Escolar é uma instituição laica, apartidária e de caráter técnico. Pais e escolas não atuam em nome da associação, nem se dirigem às editoras sob sua chancela.

A instituição realiza escuta ativa de diferentes atores, mas nenhuma manifestação individual é automaticamente endossada. Toda contribuição passa por rigorosa análise técnica e curadoria interna antes de se tornar recomendação institucional.

10) Sobre a Agroteca e o convênio com a Esalq.

Resposta: Foi afirmado que a Agroteca disponibilizaria conteúdos de desinformação climática e utilizaria o convênio com a Esalq para conferir legitimidade a esse material.

Colocamo-nos à disposição para receber a fundamentação detalhada que sustente essa afirmação. A curadoria científica realizada em parceria com instituições de ensino e pesquisa é justamente a garantia de que os conteúdos da Agroteca sejam cientificamente embasados e passíveis de atualização.

Em 2026, está em curso um planejamento de reavaliação dos mais de 500 conteúdos disponíveis, com o objetivo de verificar sua atualização, aprimorar a catalogação, indicar faixas etárias, relação com a BNCC e ampliar conteúdos.

O convênio com a ESALQ tem previsão de incluir trabalho conjunto com a Casa do Produtor Rural (ESALQ/USP) e nova parceria com o Instituto Brasileiro de Agricultura Regenerativa (IBA), ampliando a abordagem sobre sustentabilidade e processos regenerativos.

11) Sobre o fact-checking de conteúdos da Agroteca e a relação entre pecuária e desmatamento.

Resposta: Foi realizado fact-checking de conteúdos disponibilizados na Agroteca, incluindo material que aborda a relação entre pecuária e desmatamento.

A conclusão de que a afirmação apresentada seja falsa não nos parece adequada, ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis. Estamos completamente à disposição para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema.

É importante esclarecer o ponto central: o argumento não é negar a existência de desmatamento no país, tampouco afirmar que a pecuária não tenha qualquer relação com dinâmicas territoriais. O que se afirma, de forma objetiva, é que o crescimento da pecuária brasileira não depende do desmatamento.

Reiteramos que existe correlação entre áreas de desmatamento e áreas ocupadas por pastagens — fato nunca negado por técnicos e pesquisadores ouvidos por nossa equipe. O que se defende é a análise da causalidade de forma mais completa e contextualizada.

A produção pecuária no Brasil tem crescido de forma consistente mesmo com a redução da área total de pastagens, evidenciando ganhos de produtividade. Isso não elimina a existência de desmatamento legal ou ilegal, mas demonstra que tais práticas não explicam nem sustentam o crescimento do setor, que envolve uma parcela muito pequena dos produtores rurais.

Portanto, a análise deve considerar séries históricas, produtividade e eficiência, evitando conclusões simplificadas sobre um tema complexo, que exige base técnica sólida e diálogo científico contínuo.


Atualização: Esta reportagem foi atualizada às 11h34 do dia 10 de fevereiro de 2026 para incluir o posicionamento da FTD.

Fonte: https://www.aosfatos.org/noticias/pressao-do-agro-altera-conteudos-de-livros-escolares-denunciam-editores/?utm_campaign=feed&utm_medium=referral&utm_source=later-linkinbio&utm_source=Porvir&utm_campaign=2df09a94b9-Newsletter_280226_010326_Outros&utm_medium=email&utm_term=0_9ba572b4f0-2ac9d842be-273772202

17 de março de 2026
Pressão do agro altera conteúdos de livros escolares, denunciam editores
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