por Ruam Oliveira
4 de maio de 2026
Salas lotadas, excesso de demandas, necessidade de aperfeiçoamento profissional. Essas são algumas das situações às quais os professores estão sujeitos e que influenciam diretamente nos níveis de estresse desses profissionais.
O clima escolar desregulado impacta até mesmo na forma como cada educador desenvolve suas atividades, e este é um dos temas centrais do “Festival Encontro com o Porvir: valorização e cuidado para quem ensina”, que acontecerá em São Paulo no dia 16 de maio. As inscrições são gratuitas e haverá certificado de participação.
O médico psiquiatra Gustavo Estanislau, do Instituto Ame sua Mente, é presença confirmada no evento. Ele vai mediar a mesa “Saúde mental do professor: dicas para manter o equilíbrio no dia a dia”.
Autor do livro “Dilemas na educação: novas gerações, novos desafios” (Grupo Autêntica, 301 páginas) em coautoria com a educadora Alcione Marques, Gustavo acompanha de perto a rotina de profissionais da educação.
Gustavo explica que uma vida estressante significa estar em um estado constante de alerta, em que o sistema nervoso funciona em sobrecarga. “Isso faz com que a gente se sinta sobrecarregado, mais sensível emocionalmente, com menos capacidade de regular as emoções e mais cansado mentalmente”, destaca.
Para o psiquiatra, os educadores, antes de tudo, precisam entender estratégias que funcionem para ele próprio reduzir o estresse. “O professor funciona como um fio condutor do clima da sala de aula e como um modelo para os alunos”, complementa.
Em entrevista ao Porvir, ele apontou que reduzir os níveis de estresse dos professores passa por uma série de atitudes, que envolvem desde a maneira como a gestão se comunica à práticas de escuta ativa e espaços de descanso.

Gustavo Estanislau: Algumas ações importantes vão desde permitir que os educadores tenham pequenas pausas durante o dia. Pesquisas recentes mostram que fazer uma grande pausa, por exemplo, acaba sendo menos restaurador do que pequenas pausas ao longo do dia.
Outra ação seria ter algum tipo de orientação escolar que permita que os educadores se desconectem de atividades tecnológicas em momentos como o almoço ou pausas para café, por exemplo.
Isso também deveria ser tratado como uma campanha dentro da escola, porque a tecnologia, por mais que se coloque como um descanso ou uma forma de fuga da correria, tende a manter o sistema neurológico e o sistema nervoso em estado de alerta. Com isso, ela acaba atrapalhando os momentos de descanso.
Por outro lado, acho importante que os professores tenham um espaço de escuta, como rodas de conversa entre educadores que não sejam pautadas em julgamentos ou cobranças, onde possam falar da sua vida, das dificuldades e trocar experiências.
A valorização do professor também é algo que ajuda bastante a reduzir os níveis de estresse. Valorizar o professor vai além de reconhecer resultados; é validar o esforço diário, o empenho. Isso faz diferença.
Gustavo Estanislau: Em primeiro lugar, na própria postura da comunicação das lideranças com o restante da comunidade escolar. São os gestores que acabam dando esse tom, muitas vezes.
A forma de comunicação, quando é acolhedora, baseada no reconhecimento do empenho e na valorização dos educadores e das pessoas que estão dentro da comunidade, tende a funcionar bem, porque esse comportamento acaba sendo replicado em outras escalas.
Outra sugestão seria aplicar estratégias universais. O que quero dizer com isso? Estratégias que impactem toda a comunidade escolar, inclusive com a presença das famílias, se for possível. Intervenções como festas e eventos que promovam um contato positivo e leve entre as pessoas dentro da comunidade.
Esse tipo de ação também ajuda a desfazer um mito bastante comum, de que os responsáveis só devem ir à escola quando são chamados para críticas em relação aos filhos.
Gustavo Estanislau: É importante citar condutas como políticas de zero bullying e campanhas que protejam contra as microviolências.
Essas microviolências são aquelas atitudes difíceis de perceber, como brincadeiras sem graça entre colegas ou professores, ou a permissão para que um aluno fale mal de outro dentro da escola. É importante que a comunidade escolar compreenda que essas microviolências são a base para que o ambiente se torne mais hostil.
E vale lembrar que mesmo as pessoas que não estão diretamente envolvidas nessas situações também percebem o ambiente como mais tenso e negativo. Elas se sentem mais preocupadas quando sabem que esse tipo de situação acontece.
Além disso, campanhas voltadas para promoção de saúde também são importantes. Questões como sono, exercício físico, exposição ao sol, entre outras coisas simples assim, tendem a funcionar de forma positiva coletivamente.
Um professor e uma criança que dormem melhor chegam à escola no dia seguinte com um funcionamento mais saudável, mais leve, mais harmonioso, contribuindo para o clima escolar.
Gustavo Estanislau: Uma vida estressante significa estar em um estado constante de alerta, em que o sistema nervoso funciona em sobrecarga.
Isso faz com que a gente se sinta sobrecarregado, mais sensível emocionalmente, com menos capacidade de regular as emoções e mais cansado mentalmente. Esse cenário impacta em vários sentidos. Por exemplo, a dificuldade de se regular em sala de aula pode tornar o clima mais tenso.
Também pode afetar a concentração e a capacidade de captar informações. A memória de trabalho, que é essencial para o dia a dia — aquela que usamos para reter informações rápidas e executar tarefas — tende a funcionar pior quando estamos estressados.
Além disso, o corpo sofre. A pessoa fica mais propensa a adoecer, o que compromete o funcionamento geral. Sem contar que o estresse interfere no sono, na alimentação e pode gerar um efeito cascata, em que tudo passa a funcionar pior.
Ao longo do tempo, há um afastamento emocional do trabalho. A pessoa começa a se sentir como uma máquina, perde o sentido do que faz e isso pode levar à tristeza e até à depressão.
Gustavo Estanislau: O educador, antes de tudo, precisa entender estratégias que funcionem para ele próprio reduzir o estresse. Ele funciona como um fio condutor do clima da sala de aula e como um modelo para os alunos.
Então, o que ele pode fazer? Pequenas pausas antes de provas, no retorno do intervalo ou no início da aula ajudam a reduzir o estado de alerta dos estudantes. Também é possível ensinar técnicas meditativas básicas, se o educador se sentir à vontade. Vale reforçar a importância do sono para a redução do estresse.
Tudo isso está ligado a uma questão central: a presença do educador. Estar presente no sentido de estar atento, observando, percebendo.
Ter uma escuta ativa e um olhar atento para identificar sinais de sofrimento, que muitas vezes estão associados a momentos mais difíceis no clima escolar e na sala de aula.
Gustavo Estanislau: Uma primeira dica seria a existência de um ambiente onde as pessoas possam se tranquilizar e se autorregular.
Um espaço mais silencioso, com menos estímulos, com ventilação adequada, água disponível e até uma música tranquila, pode ajudar as pessoas a descomprimir.
Sabemos que, quando bem manejados, os estados de estresse tendem a reduzir. Por isso, um ambiente mais calmo, com menos movimento, pode ser muito importante. Idealmente, toda escola deveria ter um espaço assim.
A segunda dica é investir na relação entre alunos e professores. Quando essa relação é ruim, ela geralmente está associada ao estresse. E relações estressadas tendem a evoluir para situações negativas.
Fortalecer esse vínculo é essencial. Por exemplo, incentivar os professores a perguntarem com frequência como os alunos estão pode abrir espaço para relações mais afetivas, não apenas pedagógicas.
A terceira dica envolve a previsibilidade. O cérebro humano reage mal à imprevisibilidade e tende a entrar em estado de alerta quando não sabe o que esperar.
Por isso, uma rotina escolar mais previsível ajuda o cérebro a se adaptar e reduz o estresse. Com mais previsibilidade, os níveis de alerta diminuem e o ambiente se torna mais estável.