Ao longo dos últimos 12 anos, o Brasil consolidou sua posição de destaque no cenário acadêmico da América Latina, mantendo a liderança regional de forma ininterrupta entre 2014 e 2026, de acordo com uma análise do g1 da série histórica do Center for World University Rankings (CWUR).
No entanto, a análise dos dados globais revela um contraste preocupante: enquanto o Brasil é destaque positivo entre os vizinhos geográficos, sua posição no topo da pirâmide mundial permanece restrita e em trajetória de declínio.
Atualmente, a maior parte das instituições nacionais enfrenta uma perda de competitividade associada à falta de investimentos, o que dificulta o avanço da educação superior no país.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/a/h/LuYnY9T361P8sAf9IYBg/eca-usp.jpg)
ECA – USP — Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A USP tem se mantido como referência da ciência brasileira e latino-americana durante todo o período analisado. Em 2014, a instituição iniciou a série na 131ª posição global, já como a melhor da região.
Após um período de estabilidade, a universidade paulista viveu sua melhor fase da série histórica entre 2018 e 2023, quando conseguiu romper a barreira do Top 100 mundial.
O ápice histórico aconteceu em 2018-2019, quando a USP atingiu a 77ª colocação global, consolidando-se como uma das raras instituições de países em desenvolvimento a figurar em patamares tão elevados de prestígio internacional.
Após esse pico de performance, a trajetória da USP passou a registrar oscilações que indicam a dificuldade de competir com universidades estrangeiras que tiveram investimentos maiores e mais constantes.
Entre 2020 e 2024, a instituição permaneceu em colocação de destaque, mas abaixo do Top 100, flutuando entre as posições 103 e 117 no mundo.
No entanto, as edições de 2025 e 2026 revelam uma tendência de recuo persistente: a universidade ocupou o 118º lugar no ano passado e encerrou o ciclo de 2026 na 119ª colocação.
Essa queda recente não é um fenômeno isolado de rankeamento, mas o reflexo de declínios em indicadores estruturais. Segundo os dados do CWUR, a USP registrou perdas nos critérios de qualidade da educação, empregabilidade, corpo docente e pesquisa.
Para o Dr. Nadim Mahassen, presidente da organização, esse movimento é fruto de “anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos”, o que coloca a USP em uma posição de vulnerabilidade apesar de sua liderança regional incontestável.
Apesar dessa queda gradual nos últimos três anos, a USP encerra a série de 12 anos com um saldo positivo em comparação ao ponto de partida em 2014, tendo melhorado 12 posições globais no período.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/U/j/iEcdliR9Aih6Otl1pIsg/260602-info-ranking-universidades.png)
As 10 melhores instituições brasileiras, de 2014 a 2026, segundo o Center for World University Rankings (CWUR). — Foto: Arte: Kayan Albertin/g1
No cenário regional, o Brasil não apenas liderou, como ampliou o número de instituições reconhecidas internacionalmente. Em 2014, três das cinco melhores universidades da América Latina eram brasileiras: USP (131º), UFRJ (329º) e Unicamp (437º).
Em 2026, o Brasil manteve para si três posições do Top 5 regional, e ainda ampliou a ocupação de colocações mais abaixo entre as 2000 melhores do mundo:
A principal ameaça à hegemonia brasileira na região veio do México, através da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). A trajetória da UNAM é uma das mais ascendentes da série histórica na América Latina: em 2014, a universidade mexicana ocupava a 337ª posição global. Ao longo da década, a UNAM acelerou seu crescimento e, em 2026, alcançou a 287ª posição no mundo, tornando-se a segunda melhor da região e encurtando significativamente a distância para as vice-líderes brasileiras.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/u/B/fPp18BRcKt5PLIzuQUkg/53bc57c36d7577f9b2451be5b6fe32ae.jpg)
Universidade Nacional Autônoma do México — Foto: Cande Westh/Unsplash
Esse movimento indica que, embora a USP ainda lidere, o bloco de elite brasileiro formado por UFRJ (346º em 2026) e Unicamp (379º em 2026) enfrenta uma concorrência mexicana cada vez mais robusta.
A Argentina, representada pela Universidade de Buenos Aires (UBA), manteve uma presença constante, mas sem o mesmo fôlego de crescimento do México ou o volume brasileiro.
A UBA figurava em 378º no mundo em 2014 e encerrou 2026 na 354ª posição, alternando-se com a UFRJ e a Unicamp na disputa pelas vagas intermediárias do Top 5 regional.
O panorama de 2026, no entanto, é de alerta para todo o bloco: a queda generalizada atingiu 87% das instituições brasileiras e diversos vizinhos, enquanto universidades da China disparam no ranking impulsionadas por investimentos governamentais contínuos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/z/Z/kb2syORZuqEOglWPjDDw/globo-canal-4-20250415-2000-frame-115219.jpeg)
Harvard, uma das instituições de ensino de maior prestígio no mundo — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Enquanto o cenário é rotativo no bloco da América Latina, o contexto mundial indica uma imagem de imobilidade quase absoluta no topo do ranking das melhores instituições globais de 2014 a 2026.
Durante todos os 12 anos da série, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, manteve a 1ª posição global com pontuação máxima de 100. O grupo de elite é controlado por um duopólio formado pelos Estados Unidos e Reino Unido, que sistematicamente ocupam as dez primeiras posições com instituições como o MIT, Stanford, Cambridge e Oxford.
Embora o Top 10 pareça estático, houve mudanças internas na composição desse grupo ao longo da década. Em 2014, instituições como a Universidade de Chicago e a UC Berkeley figuravam entre as dez melhores. Contudo, ao longo dos anos, essas universidades perderam terreno para o avanço de outras gigantes norte-americanas. Em 2026, a Universidade da Pensilvânia (Penn) consolidou sua ascensão, ocupando a 7ª posição mundial, enquanto Princeton subiu da 9ª colocação em 2014 para a 6ª em 2026.
A tendência mais relevante fora do Top 10, no entanto, é o contraste entre o recuo ocidental e a ascensão asiática. Em 2026, pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em número de instituições no ranking (360 contra 313), com 98% das universidades chinesas subindo de posição.
Enquanto isso, potências tradicionais como Japão e Reino Unido enfrentam dificuldades: a Universidade de Tokyo, que em 2014 ocupava a 13ª posição e ameaçava o Top 10, caiu para a 16ª posição em 2026.
Os dados sugerem uma mudança no equilíbrio global da educação superior, marcada pelo avanço de países que ampliaram investimentos em pesquisa e inovação.